Cartas · Comportamento · Relatos Pessoais · saúde mental · Sem categoria

Bebidas Alcoólicas + Remédios | Relato Pessoal

Nota: eu NÃO sou psiquiatra, nem especialista, e só tenho para compartilhar as minhas próprias experiências com o assunto, de mais ninguém. Estava evitando ao máximo falar sobre isso, pelas inúmeras interpretações erradas que podem acontecer, mas várias leitoras do VNEL me pediram esse relato. Então aqui está. Por favor, não me xinguem nos comentários. A intenção é boa.


Sempre gostei de bebidas alcoólicas. Aliás, sempre gostei de anestesias, remédios para indução do sono e etc. Gosto da sensação de estar meio fora de órbita, gosto do relaxamento, e não quero ficar justificando e enumerando o que me faz gostar, porque no fim das contas acho que simplesmente gosto porque gosto. Minha mãe diz que eu tenho tendência ao alcoolismo, mas nunca pensei o suficiente a respeito dessa hipótese. Eu só curto. E quando me descobri depressiva, em 2014, e comecei com os medicamentos ansiolíticos, me vi apaixonada por quase qualquer válvula de escape da realidade direta.

image1

Meu primeiro medicamento foi a Duloxetina, manipulado, receitado por um médico lixo. Tomei por pouco tempo, mas nesse pouco tempo fui a uma festa. Bebi, chorei, vomitei, surtei, briguei com toda a minha família quando cheguei em casa, saí batendo a porta e fui dormir na cama da minha avó, com ela, no apartamento de baixo. Era o começo do meu segundo ano na faculdade, e o primeiro havia sido regado a open-bar e happy hour sem que nada parecido chegasse sequer perto de acontecer. Foi, sim, meu primeiro porre durante a medicação, mas também foi meu primeiro porre deprimida e profundamente triste. Não sei até que ponto um ou outro fato foi responsável pela explosão, não sei se foi uma mistura dos dois.

O álcool no organismo, sozinho, já é capaz de externar e aumentar sensações mais íntimas, então creio que eu podia ter me alterado daquela forma, naquele momento de dor, mesmo sem o medicamento. Mas três dos psiquiatras que visitei em dois anos e meio me disseram para não misturar a bebida e o remédio, e não posso ignorar essa possibilidade.

Fiquei um tempo fazendo apenas terapia, depois dessa noite fatídica. E bebendo, achando que não necessariamente eu precisava de remédios para a depressão, talvez até fingindo que eu não estava doente. Mas a bebida, do começo de tudo de ruim em diante, me trouxe vários momentos ruins, inclusive nos períodos sem remédio. Então acho, sim, que várias “bads” foram porque eu misturei a bebida alcoólica a um coração e a uma mente que queriam gritar, chutar, chorar, correr, virar de ponta-cabeça, viajar pra outro planeta e passar umas férias lá. Eu queria me livrar da dor, e o álcool trazia esse desejo à tona de forma levemente descontrolada.

Em momentos de mais calma, eu bebi e foi tranquilo. Às vezes tinha alguma paranóia leve, pedia desculpas cinco vezes por ter esbarrado em alguém, por exemplo. Em alguns momentos, mesmo em depressão, foi okay, foi bom.

A segunda medicação foi Luvox (pro Transtorno Obsessivo Compulsivo) + Rivotril gotas (pra ansiedade e depressão). Foi meu segundo psiquiatra, particular, caríssimo, num dos prédios mais altos e bonitos da beira-mar de Florianópolis. Ele parecia saber muito bem o que fazia, mas depois me falaram que ele apenas comercializava remédios e deixava as pessoas ainda mais dependentes. Não sei. Não concordo de todo, não discordo de todo, não conheço a índole do homem, é coisa demais pra pensar. Foi esse médico que me deu um atestado de seis meses, pra que eu pudesse me afastar da faculdade. Lembro que poucos dias depois do início desse tratamento era meu aniversário de 21 anos, e mandei um e-mail pro psiquiatra perguntando se eu podia beber. Ele disse que sim, bastava suspender o Rivotril naquele dia.

E foi a realização pra mim. Porque o Rivotril era o máximo, a sensação de escape era maravilhosa, o gosto era doce, e eu podia simplesmente não tomar se estivesse a fim de ficar bêbada. Eu perdi completamente o controle do Rivotril, mas isso é assunto pra outro texto. Quando me dei conta, estava misturando os dois. Quando me dei mais conta ainda, era a minha fase mais irresponsável nos últimos dois anos. Não acredito que tenha sido irresponsável porque a bebida + o remédio me deixavam descontrolada, mas sim porque eu simplesmente não me dei limites. Aconteceram várias coisas caóticas nessa época, mas a mistura de substâncias foi super, hiper, mega presente.

Toda uma soma de fatores culminou num surto neurótico, que primeiro diagnosticaram como psicótico, e então minha medicação e médico mudaram outra vez, e nunca me senti tão mal com um remédio. Eu estava, finalmente, debilitada demais para beber. E o remédio era um antipsicótico – desnecessário, no final das contas – que me deixava um zumbi, com a fala travada, dormindo o dia todo, a noite toda, não conseguindo subir escadas, etc. Além disso, aquele remédio (não lembro o nome) não tratava a ansiedade, e tive crises horríveis, durante as quais precisei de tarjas pretas na veia e ainda assim não dormi.

Mudei, de novo, de psiquiatra. Completamente fora da casinha e perdida dentro dos meus sentimentos e sensações. Descobriram que meu surto não tinha sido psicótico, suspenderam aquele remédio (pra mim) horroroso, e cheguei a um tarja vermelha, o Remeron. Pra depressão, ansiedade e ganhar apetite. Isso foi um pouco antes do final do ano de 2015, e logo em seguida eu quis beber Martini com cereja e caipirinha de vinho, pra simplesmente sentir aquela sensaçãozinha que me agrada. A médica não deixou, disse que eu não misturasse álcool e remédio, porque um podia ampliar o outro e me causar mais momentos estupidamente ruins. Eu estava assustada com tudo o que havia acontecido, e acreditei e não bebi.

Mas logo em seguida, resolvi viajar pra minha cidade natal (sou trescoroense perdida em SC), para respirar. E fui a uma panquecaria com uma velha amiga, e ousei dividir uma caipirinha de vodka com limão. Não senti nada de ruim, e me joguei no Martini e nas “caipis” durante o verão inteiro. O Remeron (Mirtazapina) me fez um bem gigantesco, que nem mesmo o Rivotril – do qual eu sentia tanta falta – havia feito. Acredito que o Remeron me permitiu uma melhor condição mental para lidar com meus sentimentos, dores e desejos, e não havia mais o que explodir durante uma cachaçada.

Continuei no tratamento com o Remeron até recuperar todo o peso que havia perdido durante a anorexia e a depressão e até não sentir mais que precisava dele. Então diminuí a dose, com consentimento da minha médica. Mas parei por conta própria, porque sou teimosa. Ao todo, me tratei com o Remeron por cerca de oito meses, e foi um tratamento que valeu completamente a pena. Faz cerca de um mês e alguns dias que parei totalmente, e graças à Deusa eu não tenho mais me perdido da minha consciência nem de mim, nem nos momentos de crise e coração palpitante.

Eu não tenho respostas pra perguntas do tipo “como você lida com a vontade de beber e a necessidade dos remédios?”. Mas eu gostaria de ter tido mais consciência do meu limite quando comecei com o Rivotril e misturei tudo e adorei ficar chapada daquelas coisas e virei um caos achando o máximo. Eu gostaria de não ter bebido naquela época, acima de tudo porque eu não estava entendendo a minha própria cabeça, e coisas que eu nem conhecia podiam explodir. Não sei dizer sobre as composições da cachaça e dos remédios e sobre como elas interagem entre si, porque não me aprofundo sobre isso, mas sei que cada organismo reage de um jeito, e depois do que passei, quero dizer a quem estiver lendo isso que, talvez, dependendo da sua sensibilidade no momento, não valha a pena se testar tanto quanto eu me testei. Talvez valha a pena se resguardar um pouco mais.

É isso. Por favor, não interpretem nada errado, não tomem como incentivo pra misturar, perdoem o texto enorme e não desistam de mim, hahaha. Me sigam no instagram @darksideofd e beijas!


img_4682Denise Dantas. Trescoroense, estudante de Letras, Aquário e Peixes. Unicórnio das trevas, mãe de cachorro, entusiasta de duendes, sommelier de caipirinha. Extremamente sensível, efusiva, de não tão fácil trato, acredita no amor. Chatinha, pequenininha, sincera e apaixonada, escreve e faz tudo pra acalmar o coração. fb-art download f88a80d5-d129-47fe-8053-cf057338f7b3.jpg

Anúncios

6 comentários em “Bebidas Alcoólicas + Remédios | Relato Pessoal

  1. Eu estou fora do tarja preta há 6 meses. Mas uns anos atrás, quando estava muito mal, misturava com álcool sim. Hj não faria de novo e tenho evitado o álcool, porque sinto que no dia errado piora tudo. O álcool mexe com o sistema nervoso e quando estou depressiva, é um tombo só.

    Curtir

  2. Eu também não gosto de misturar, mas realmente a sensação de se estar “fora de órbita” é muito atraente.. MAS prefiro evitar, porque sempre acontece coisas ruins 😦

    Curtir

  3. Já fazem quase uns 10 anos que tomo remédio e nesse tempo nunca consegui parar de beber definitivamente… Simplesmente não consigo! Se saio para baladas ou bares ou até mesmo encontros com amigos em casa eu acabo bebendo … E sempre levei os dois ,bebida e remédios … Sinto as bads… Acho as vezes podem ser piores sim por conta do remédio ,mas bad por bad eu sempre tive desde os meus 15 anos desde q era pura e imaculada de tudo. Diminui a quantidade que bebo até por conta dá quantidade que saio … Até msm por conta dá idade e algumas coisas chatas ao longo dos meus quase 36 anos … Ando bastante cansada e não saio tanto ,mas se saio … Bebo ! Fazer o que? Acho que o maior medo nem são as bads ou Paranóias … Talvez o maior medo seja ter algum pirepaque no coração sei lá ….

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s