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Eu, a Anorexia e a Depressão | Relato Pessoal

Eu tinha 20 anos recém feitos e pesava 50kg com 1,52 de altura. Eu sempre estive okay com meu corpo e nunca tive grandes reclamações, nunca nenhum descontentamento que me levasse a fazer mal a mim mesma. Era começo de 2014, Março, quando tive duas surpresas muito ruins, que me deixaram muito magoada, e a Depressão se apresentou.

Fiquei, mesmo, muito triste na primeira semana após a segunda grande mágoa. Triste de perder o primeiro dia de aula naquele semestre da faculdade, triste de perder o apetite e só comer uma maçã durante um dia inteiro. Isso pode acontecer com qualquer um, sem que a pessoa tenha a doença da Depressão. Acontece que a minha tristeza e a minha falta de apetite não passaram. Eu não consegui, naquela época, reunir coisas boas nos meus dias e dar a volta por cima: a tristeza era mais forte que eu e me puxava pra baixo, como um peso.

A Depressão se alastrou e eu mal pude perceber. Comia cada vez menos e estava cada vez mais infeliz, até que deixei de ver qualquer beleza ou divertimento na vida. Mas um dia me disseram “como você emagreceu!”, e eu me olhei no espelho e vi que, realmente, eu estava seca. Já tinha perdido 5kg em cerca de um mês. E a minha mente, naquele momento adoecida e comandando um coração cheio de dor, achou o máximo que meu corpo estivesse magro.

Essa magreza passou a ser o centro da minha motivação. Eu recebia elogios de gente que não se importava comigo a cada quilo que perdia. Mas eu estava depressiva, não enxergava nada bom no mundo além do mundo doente no qual passei a viver. Então comecei a gostar de não comer, e de repente eu estava tomando seis comprimidos por noite para passar mal e vomitar a maçã que havia comido durante o dia, porque eu queria menos, e menos ainda.

Acredito que usei a magreza como “distração” porque, pela primeira vez, eu estava o mais perto possível do padrão magérrimo de beleza que as revistas nos enfiam goela a baixo. Ou seja, foi fácil me apegar a isso. Eu vestia calças tamanho 36, e passei a usar tamanho 30 (da mesma marca!). Troquei todo o meu guarda-roupa, achando o máximo e sem perceber que eu estava, na verdade, adoecendo cada vez mais.

Cheguei aos 38kg e alguns gramas, quase 39. E continuava querendo menos. Isso tudo em cerca de três meses. Reuniram-se dois médicos comigo e com a minha mãe, porque eu podia estar com alguma doença além da Depressão e da Anorexia, e precisava me alimentar. Mas eu não conseguia reverter o quadro, e só o universo sabe explicar como eu não tive alguma falha muito grande de nutrientes no corpo, como meu sangue não enfraqueceu. Lembro de uma noite, durante os 39kg, em que minha mãe me deu comida na boca, comigo deitada, porque eu estava fraca demais para levantar.

Quando comecei a melhorar da Depressão, voltei a comer um pouquinho melhor, mas continuava magérrima. Passei quase dois anos com 42kg. Hoje estou pesando 47kg e tem sido uma luta com a minha autoestima, que me achava bonita quando eu estava profundamente doente. Autoestima é um assunto que vai longe, merece outro texto gigante (vou escrever qualquer hora), mas esse aqui é pra compartilhar a minha experiência que ligou Depressão e Anorexia. Então não vou me estender sobre autoaceitação e amor-próprio aqui.

Quero só dizer pra você ter muito cuidado e tentar limpar os olhos das lentes doentes da sociedade ao olhar pra si mesma. Quando você estiver passando por alguma situação, olhe duas vezes pra ela. Olhe aqueles cantinhos do seu corpo e da sua alma que o resto do mundo não vê, e veja se eles estão saudáveis de verdade. Padrões de beleza impostos pela sociedade são uma coisa nojenta, mentirosa e prejudicial a milhões de pessoas. Tem gente que se mata. Famílias que perdem filhas maravilhosas aos 15 anos de idade.

Existem tipos de corpos, e não um padrão de corpo ideal. Você nasceu linda, você nasceu perfeita. Não tem nada de errado em querer mudar algo, em usar maquiagem pra se sentir bem, em malhar para dar um jeitinho no que te incomoda. Mas você precisa saber que é maravilhosa assim, do jeito que você tá agora. Eu tenho certeza que você também vai ficar incrível com as mudanças que quiser fazer em si (caso queira), desde que você não opte por elas num momento doente, e desde que elas não te machuquem, não te prejudiquem, não te adoeçam, não te tirem do mundo.

Com carinho,

Denise.

Me segue no insta! @darksideofd


dedeblog

Denise Dantas. Trescoroense, estudante de Letras, Aquário e Peixes. Unicórnio das trevas, mãe de cachorro, entusiasta de duendes, sommelier de caipirinha. Extremamente sensível, efusiva, de não tão fácil trato, acredita no amor. Chatinha, pequenininha, sincera e apaixonada, escreve e faz tudo pra acalmar o coração. fb-art download f88a80d5-d129-47fe-8053-cf057338f7b3.jpg

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3 comentários em “Eu, a Anorexia e a Depressão | Relato Pessoal

  1. Oi Denise, ultimamente tenho lido seus posts que são muito do que eu sinto. Eu também, assim como você, escrevia sobre meus sentimentos e coisas a mais, mas a depressao também me tirou isso.
    Tenho 22 anos e estou passando pela minha segunda fase de depressao (aquela que as vezes volta depois de um tempo que você se recuperou). E ela volta mais forte, muito mais forte como médicos me diziam.
    Mas meu desabafo é que em 40 dias eu perdi 11kg, não tenho fome, não quero comer (às vezes até me obrigo, e faço 1 refeição por dia). Mas bem como você disse, eu também como cons os remédios de lado, os laxantes passaram de 1 para 4, e acho que agora eles não fazem efeito e eu me sinto tão gorda e nojenta por não colocar o que comi para fora de mim totalmente. Estou em tratamento, estes fatos estão acontecendo no presente momento de minha vida, e gostaria de saber como você conseguiu diagnosticar que além da depressao a anorexia também estava lá com você.
    Eu não preciso falar sobre as preocupações do noivo, família, amigos e tudo mais né? Mas eu só tenho nojo, agonia de comer, e o que como dói, me faz mal, me dá raiva. Estou lutando para não voltar nem se quer para 1kg a mais do que eu perdi. Minha aparência magra me deixa bem comigo (acho que é a única coisa). Você me entende?
    Só me diz como você diagnosticou a sua anorexia, e como eu deveria também fazer. Um super beijo e obrigado por todas as palavras! Se cuida.
    Leitora, Ellen Brandão

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  2. Seu texto veio no momento exato para mim. Fui diagnosticada com depressão, logo após iniciei o tratamento e a tentar voltar a agir no meio ao meu redor. Para sair de casa, e melhorar a ansiedade comecei a fazer caminhada e corrida. Resultando na perda de peso, as pessoas me elogiam falando como emagreci. Sempre tive problemas com meu corpo, a adolescência foi o período que obtive mais ódio pelo fato de não ser magra e possuir uns quilinhos a mais. Esses “elogios” me deixam felizes, comecei a pensar em comer menos e correr mais. Suas palavras me despertaram. Obrigada.

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  3. Olá, Denise eu sou Rodrigo e tenho 14 anos estou fazendo um trabalho para apresentar sobre anorexia na escola seu texto/relato me ajuda muito obrigado
    Do leitor Rodrigo Lima

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