saúde mental · Sem categoria

Parem De Romantizar A Dor

Texto da colaboradora Haline Farias


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Não há nada de poético em ter transtornos psíquicos. Não é frescura estar com sua saúde mental mal. Parem. É muito cruel e cansativa a banalização e romantização de doenças mentais, isso machuca e gera dúvidas sobre os transtornos em quem realmente os tem.

Constantemente é ouvido em falas, filmes e músicas o quanto as pessoas acham “cool” ter depressão. Parece legal aquela cena depressiva enquanto escuto uma música triste e tomo um chá – café é até mais comum -, mas não é. Depressão não é ouvir Lana Del Rey e suas músicas sobre suicídio. Não é passar um dia ou alguns dias triste por algo que aconteceu, ou até mesmo sem motivo. Depressão não é “cult” e nem glamoroso. Ter depressão não é estar deprimido por alguns momentos em sua vida. O negócio todo é muito mais difícil, é como uma ferida exposta que algo vive cutucando pra doer de forma cíclica.

É normal se sentir angustiado, melancólico e sem motivação: isso é estar muito triste, totalmente diferente da doença que muitos vivem a romantizar e até mesmo desejar. A depressão crônica é algo que acontece no cérebro e não é possível parar as reações químicas e a dor que rasga o peito. Depressão não vai te fazer a pessoa mais diferente ou te fazer viver como na série “Skins”, muito menos te deixar mais descolado e artístico. Te mostram a beleza em que se transformou a doença de Van Gogh, mas ninguém cita as crises do homem doente, da dependência alcoólica e os “finalmentes”: seu suicídio. A depressão de Woody Allen pode parecer “favorável” para a melancolia de seus filmes, mas ninguém sabe do terror que é conviver com a doença.

Algumas pessoas também gostam de se dizer “loucas”, “doidas” ou “muito ansiosa(o)”. Mas isso só é dito enquanto for sinônimo de gente animada, que faz o que quer ou que não consegue esperar por algo. Porque quando isso se volta para o lado de precisar de ajuda médica – algo diagnosticado – já não dá, pois aí é coisa de gente “LOUCA” mesmo! E “louca assim” ninguém quer ser. Porque estar ansioso é diferente de ser uma pessoa com transtorno de ansiedade, e se dizer louco tem um abismo até, de fato, se sentir louco e não saber diferenciar a realidade da imaginação.

O outro lado ninguém quer, ninguém enxerga. E fazem pior: banalizam. A face que esmaga os dias de quem realmente sofre com doenças mentais ninguém quer colocar em pauta. Vai além da dor e da bagunça na mente. É não conseguir levantar da cama por um dia inteiro e o corpo inteiro doer, é chorar até vomitar ou até dormir, são dores de cabeça constantes, um coração acelerado que queima, é falta de ar que sufoca mais ainda quando puxamos o ar. Perde-se o estímulo das coisas que dão prazer, há excesso ou falta de sono, compulsão alimentar pra preencher no estomago o vazio que se sente na vida, ou até falta total de apetite. A mente borbulha com pensamentos que te fazem pensar estar louca(o), há uma sensação de morte ou mesmo a vontade de achar maneiras de fazê-la.

Não me entra na cabeça como alguém pode ter desejo ou enxergar magia em ter transtornos psiquiátricos, porque estar aqui desse lado não é bom. Nem pense em ter isso por “achar legal” ou pra impressionar as pessoas. Você nos machuca e banaliza o que já é estigma e invisível. O seu “queria estar morta!” é desejo de muita gente e realidade de mais gente ainda. Não romantize, mas respeite, porque com certeza você não queria estar aqui e não te desejo isso.


Haline Farias. Vim do Planalto Central pra ser do mundo e ter um coração eterno na minha Bahia, mas a alma é forasteira. Ariana confusa com esse ascendente em libra. Estudante de jornalismo e o que eu quero noticiar é o mundo todo ajudando as pessoas. Feminista, vegetariana e adepta de um amor plural. Diminuo minhas dores pra fazer graça pro outro rir. Apaixonada pelo amor. Se eu com esse “eu” que é estavelmente instável não estou louca, você também não! ♥
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3 comentários em “Parem De Romantizar A Dor

  1. Acredito que muito disso vem justamente da glamourização midiática da depressão. As pessoas se alimentam disso, não é por acaso a existência de movimentos góticos, emos, os existencialistas… Pra quem realmente sabe como é e vive essas dores, tudo é diferente, a perspectiva é outra.

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  2. Não sei ao certo, mas penso que as pessoas que geralmente costumam romantizar a dor, sofrem de autocomiseração. Isso já é suficientemente necessário para se buscar ajuda de um profissional. Não consigo acreditar que isso está ligado a glamour, pois é de fato algo muito sério.

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  3. As pessoas tem “simpatia” pelo transtorno até a pagina 2. Acredito que a maioria nem sabe do que, realmente, é composto um transtorno mental. A maioria não tem noção da complexidade. Não sabem como tarefas tao “banais” se tornam desafios pra quem sofre. São três da manhã… Eu to cansada. Cada músculo do meu corpo esta doendo… Como eu queria dormir… Mas meu cérebro parece discordar… Por mais que eu procure, não vejo glamour nisso…
    Obrigada pelo texto!! Obrigada pelo espaço…

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