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Pra Você, Que Não Consegue Sair De Casa

Oi, bem. Eu nem sei o que vou escrever aqui, mas já vou escrevendo, porque quero que você saiba, pelo menos, que eu sei o que ‘cê tá passando.

Não sei muito sobre você. Não sei o que te levou a essa situação, não sei as coisas que passaram por você, não sei como é o mundo dentro da sua casa. Mas sei como é não conseguir sair. Sei como é achar que está enlouquecendo porque a única região segura no universo inteiro são os 20 metros-quadrado de uma porta até a outra. Seus parentes e amigos tagarelando sobre como a vida é incrível e merece ser incrivelmente vivida, e nada disso fazendo sentido pra você. Pior: você sentindo medo da vida além dessas quatro paredes que agora te cercam.

Lembro que, na época, se eu pudesse, pretendia ficar em casa pra sempre. Eu tinha tantos medos tão gigantes, malucos e macabros, que não vou escrever aqui, pra não te assustar nem colocar minhocas na sua cachola. Sei que você já deve estar rodeado pelos seus próprios fantasmas e esqueletos. Sei que você está fragilizado e assustado, sei que algo te empurrou cada vez mais pra dentro de si mesmo. Quero que você saiba que você é compreendido por vários “alguéns”, muito além de mim, que estou escrevendo pra você.

Muita gente também está em casa agora, com medo de sair, com medo de enlouquecer, com medo de colocar o pé para fora e ser atropelado no meio do próprio quintal, às quinze horas de uma tarde ensolarada. Muita gente divide com você esse seu medo. Você não está sozinho.

Você também não está ficando louco. Falo por experiência própria. É perfeitamente normal essa fragilização pela qual passamos diante de algumas situações. O mundo nos cobra que andemos no seu ritmo, mas muitas vezes esse ritmo não nos é saudável. E, ficando doente, é muito fácil que acabemos nos retraindo e nos assustando. Sei que as revistas de moda e a tevê e o mercado de trabalho podem te fazer sentir-se bobo por não conseguir acompanhar o ritmo ou colocar o rosto na luz do Sol e se jogar no mundo, mas isso que você está sentindo é completamente compreensível. É uma resposta do seu psicológico, do seu emocional e do seu físico.

Até hoje a fragilidade que se abateu sobre mim não passou completamente, e eu já estou indo à faculdade e procurando emprego outra vez. Às vezes ainda sinto vontade de ficar, de abraçar meus cachorros e restringir minha vida fora de casa a ir ao sacolão menos movimentado do bairro, onde só vende cenoura velha, mas não tem conhecidos, e voltar pra casa correndo. Você me entende, né? E você sabe que eu não estou louca. Você também não está. Não sei quando esse momento seu vai passar, mas ele tem tudo pra ser apenas mais um momento da sua vida, e existem coisas que você pode fazer para se ajudar a enfrentá-lo.

Comigo foi assim: depois de alguns dias no quarto, sem tomar banho (e não é nenhuma vergonha falar isso), sobrevivendo de medicamentos, voltei a sair semanalmente – de carro – para ir à terapia. Eu ia escondida atrás do banco, com medo de ver pessoas e com medo de que o carro batesse durante o longo trajeto de cinco minutos. Ao explicar para o psicólogo o que eu estava sentindo, ele me disse que o melhor podia ser, de fato, não me forçar a encarar algo para o qual eu não estava preparada. Eu podia ficar em casa. Você pode ficar em casa.

Mas eu precisava estar em tratamento, para não me perder da vida e do mundo. Porque o mundo ‘tá aí, né? É do lado de fora de casa que encontramos as plantações de tulipas, as cascatas e as fábricas de chocolate. É, provavelmente, do lado de fora da sua casa que você vai conseguir tocar vidas com o seu trabalho. É do lado de fora que estão as piscinas, as floriculturas e os passeios de bicicletas. É no meu medo insano de morrer no caminho entre meu portão e a terapia que mora a possibilidade de interagir com um profissional disposto a me ajudar. Até mesmo o sacolão menos movimentado do bairro, aquele com as cenouras velhas, não fica dentro da minha casa. Por favor, ao se dar o seu tempo e o seu espaço, não se aliene de forma alguma: saiba da existência do universo e reconheça que você não está bem no momento, mas que mais cedo ou mais tarde pode e vai voltar a sentar ao Sol.

Faça o possível para ir ficando a cada dia mais forte. Tente um pouco mais, toda manhã. Leia a respeito. Busque tratamento. Busque informação. Busque energia positiva. Recupere-se, porque algo de ruim te aconteceu e te prendeu em casa. Mas “não é o que fizeram com você, e sim o que você faz com o que fizeram com você”, não é mesmo?!

Eu sei que agora não está fácil. Eu demorei para me recuperar, mas aos poucos consegui. Ainda existe uma raspinha de medo, mas todo mundo tem. Você vai sair dessa. Por favor, por você, tenha em mente que é um momento ruim, uma situação ruim, e não uma vida e um mundo ruins.

Você está numa colônia de férias, tá? Quando ela acabar, você vai caminhar para onde quiser. ❤️


img_4682Denise Dantas. Trescoroense, estudante de Letras, Aquário e Peixes. Unicórnio das trevas, mãe de cachorro, entusiasta de duendes, sommelier de caipirinha. Extremamente sensível, efusiva, de não tão fácil trato, acredita no amor. Chatinha, pequenininha, sincera e apaixonada, escreve e faz tudo pra acalmar o coração. fb-art download f88a80d5-d129-47fe-8053-cf057338f7b3.jpg

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5 comentários em “Pra Você, Que Não Consegue Sair De Casa

  1. Meu deus, vc escreve com tanto carinho e sinceridade que meu coração se enche de paz. Paz por saber que em algum lugar desse Brasil tem alguém que consegue escrever p que já senti um dia, e que talvez tenha sentido hoje!
    Um beijo é muita força nessa caminhada! 😘

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