Comportamento · Crônicas · Relatos Pessoais

Liberdade Em Tardes Quentes De Verão

Eu estive de 2000 a 2010 obrigatoriamente dentro de uma sala de aula. Onze anos passando mais de quatro horas por dia, praticamente todos os dias, na escola. Minha faculdade é de Letras – Português, e eu fui torturada estudando química e física por mais de uma década. Eu era obrigada a estudar e a ir bem nas provas, porque se eu não me formasse na escola, não poderia fazer um curso superior sobre nada. E eu não podia faltar por cinco dias consecutivos sem que a escola fosse avisada, porque se isso acontecesse a direção informava o conselho tutelar. Sempre odiei o fato de tanto da minha vida depender daquela instituição e daquelas pessoas – o corpo docente – que mal me conheciam.

Mas o pior era me sentir presa nas tardes quentes de verão, assistindo através da janela da sala de aula a vida passar. A escola onde estudei no final do ensino fundamental era cercada por árvores enormes, cheias e elegantes, e o vento as balançando era a coisa mais mágica dos dias que eu passava me sentindo parte da mobília daquele colégio – uma mesa colorida, uma cadeira, um quadro verde-escuro. Moro na praia desde 2001 e, curiosamente e por uma infeliz coincidência, em nenhuma das incontáveis tardes em que tive aula eu fui ver o mar. Ou decidi e pude, de fato, comer um sorvete ou escrever poesias.

Pode parecer bobo, mas hoje eu sou maior de idade, a época de aluna nas escolas acabou e essa é uma alegria da qual sempre lembro. Ninguém pode processar nem investigar os meus pais se eu não aparecer por quinhentos dias seguidos na faculdade. Hoje eu ando de ônibus sozinha e controlo meu próprio dinheiro para ir pra cima e pra baixo, por onde eu bem entender. Posso deixar de ir à aula para ir à praia. Hoje o fim do mundo se eu for negligente com meus estudos é bem menor do que foi dos meus cinco aos dezesseis anos, e que sorte que agora, finalmente, é assim. Que bom que nos verões de hoje em dia posso escolher meu horário de aula, e se não for como eu quero posso faltar, abandonar disciplina, errar e tentar consertar cinco minutos depois quantas vezes eu quiser.

Esse simples e significativo deleite me foi concedido pelo universo porque a vida foi passando e se reorganizou ao meu redor. Surgiram outros fins do mundo, diferentes e maiores do que aquele que me aterrorizava e me obrigava a fazer as tarefas de casa todo dia. Mas o inferno que era para mim o fato de estar presa em plenas 16h de dias lindos não vai ser esquecido nem subestimado, porque sempre que lembro que nove anos atrás tudo o que eu queria era estar solta na rua, minha atual liberdade durante cada tarde quente se torna um pouco mais minha.

Espero que o universo continue se reorganizando. Que as mais diversas prisões encontradas ao longo dos dias fiquem, aos poucos, no passado, e que a liberadade seja cada vez mais íntima e particular.


img_4682Denise Dantas. Trescoroense, estudante de Letras, Aquário e Peixes. Unicórnio das trevas, mãe de cachorro, entusiasta de duendes, sommelier de caipirinha. Extremamente sensível, efusiva, de não tão fácil trato, acredita no amor. Chatinha, pequenininha, sincera e apaixonada, escreve e faz tudo pra acalmar o coração. @unicorniossaurorex fb-art download f88a80d5-d129-47fe-8053-cf057338f7b3.jpg

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