Relatos Pessoais · saúde mental

Experiência Pessoal: Tratamento Pelo SUS, CAPS e Avó

Esse texto é um relato sobre uma experiência um tanto pesada na minha vida, falo sobre crise e dificuldades que passei, se você está sensível quanto a isso no momento, peço que pare de ler, pois pode te trazer sensações ruins. ❤️


Estou escrevendo para explanar um pouco de como cheguei ao tratamento psicológico e psiquiátrico na rede pública de saúde, não achando que esse texto pode resolver o problema de alguém, mas sim como uma experiência nem boa nem ruim que quero dividir com outras pessoas que possam se encontrar em situações parecidas. Como uma conversa, não como uma receita de bolo.

Foi no final do ano passado. Eu estava sem medicação e uma porção de fatores me levaram a um estado emocional e psicológico muito frágil. Então, durante uma conversa ao telefone em um dia difícil, eu perdi o controle e cheguei muito perto de me machucar gravemente. E até hoje não lembro muito bem da ordem dos próximos fatos que vou contar pra você.

Nos arredores da cidade onde moro há um hospital psiquiátrico público do qual eu – e todo mundo que conheço – tive durante anos uma imagem estigmatizada, baseada no preconceito e na falta de informação de quem gosta de falar por aí do que não entende nem conhece. E foi para esse hospital que minha mãe, muito preocupada comigo, me levou. E foi essa imagem estigmatizada que foi quebrada.

Não tenho nenhuma vergonha em admitir que a fantasia dentro da minha cabeça me dizia que aquele lugar era um hospício semi abandonado caindo aos pedaços de um filme de terror. Seres humanos são seres impressionáveis. E não era nada do que eu imaginava. Trata-se da unidade pública onde pacientes são internados e onde se encontram alguns profissionais para atender quem chega em estado crítico. Fui muito bem recebida, nos apresentaram a opção de que eu ficasse lá por alguns dias, mas a princípio preferimos que eu voltasse para casa.

Do hospital, fui encaminhada para uma unidade CAPS – Centro de Atenção Psicossocial, que presta apoio psicológico e psiquiátrico a pacientes com transtornos e a suas famílias. Aqui em Florianópolis existe o CAPS Crianças e Adolescentes e o CAPS Adultos. Eu e minha mãe, por engano, fomos primeiro ao CAPS Crianças e Adolescentes, e tivemos a sorte de sermos convidadas a conhecer uma parte das atividades realizadas lá.

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Quero ressaltar que a unidade do CAPS que atende crianças aqui é maravilhosa. Um ambiente no qual me senti acolhida de verdade, onde em cada cantinho era possível enxergar o zelo por cada pessoa e família que é atendida ali. Havia desenhos feitos pelas crianças por toda parte, o espaço era todo higienizado, as pessoas todas com uma boa vontade linda, os lanches preparados com cuidado e a atmosfera muito agradável. Lembro de pensar que se eu pudesse escolher um lugar para ser internada, seria aquele.

Então fomos ao CAPS Adulto. Cheguei dormindo, mas lembro de algumas coisas de quando acordei. O CAPS Adulto na cidade onde vivo é num pátio bonito e cheio de árvores, e a atmosfera do lugar é tão pesada quanto são pesadas as situações com as quais aquele espaço lida. Provavelmente nessa unidade o controle por parte dos funcionários é menor, já que lá adentram maiores de idade com problemas com álcool, drogas ilegais, crises familiares e transtornos mentais.

Infelizmente nenhum estabelecimento de saúde, seja ele público ou particular, dá conta de entrar na casa das pessoas e tirar delas os problemas que existem na esfera particular. Acredito ser esse o motivo de alguns ambientes serem tão pesados. Existem problemas sociais, familiares, muito mais íntimos do que a parte que está dentro das possibilidades do sistema. Seria ideal que todas as carências pudessem ser supridas, mas ainda não é assim. Entretanto, o trabalho que vi sendo realizado foi capaz de me animar.

Fui atendida com meus pais por uma psicóloga e um psiquiatra, a consulta foi boa e os profissionais fizeram questionamentos bem completos. Montaram um plano de tratamento para mim com base no que meus pais podiam fazer naquele momento, e agendamos visitas regulares ao psiquiatra. Me foi receitado, com base naquela primeira consulta, um antipsicótico, para segurar minha onda e me impedir de ter outro surto.

Daí em diante, ocorreu que meu caso não era psicótico e precisei, por motivos de logística, mudar de médico. E isso não vem ao caso agora, porque trocar de médico é das coisas mais normais da vida, e não é uma condição atrelada ao fato de o serviço ser através do SUS ou em uma clínica particular. Eu estou contando a minha história para você perceber que cada caso é particular e único.

Minha avó, por exemplo, recebe um tratamento excelente para a sua Depressão através do posto de saúde do nosso bairro. Ela foi normalmente a uma consulta (pegou uma das famigeradas vinte fichas) e disse que achava que tinha a doença. A doutora que lhe atendia a encaminhou para um psiquiatra dentro da própria unidade do bairro, e em pouco tempo minha avó recebeu receitas e remédios e pode retornar quando quiser. O atendimento que lhe prestaram é mais do que positivo, o tratamento faz muito efeito e a melhora no quadro fica visível.

Não me iludo achando que todo idoso que depende do sistema público de saúde tem a sorte da minha avó. O Brasil é imenso, existem comunidades extremamente afastadas e afetadas por infinitos fatores, e isso não exclui ninguém da possibilidade de adoecer. O que estou contando é experiência pessoal, na esperança de que esse relato seja, de alguma maneira, útil no sentido de conter alguma informação. Conversando com algumas pessoas fiquei sabendo que nem em todo lugar tem CAPS, que em outras cidades essas unidades podem ter outros nomes, e que também podem nem existir. Mas, se o caso é que alguém precisa tratado, não importando onde, é importantíssimo que se tente encontrar um caminho.

A universidade federal em que estudo oferece psicólogos gratuitamente. Muitas universidades no país fazem isso, inclusive particulares. Você pode ligar para as da sua cidade ou arredores e se informar a respeito. Os CAPS possuem telefone, geralmente disponíveis na internet, juntamente com informações sobre o tipo de unidade direcionado à saúde mental que existe na localidade. Algumas clínicas particulares atendem, inclusive, oferecendo desconto para quem possui o cartãozinho (aquele de papel) do SUS.

Em nenhum momento eu quis reter nesse texto todas as informações necessárias sobre o sistema de saúde, porque não tenho nem capacidade para isso. Mas acho que mostrei como aconteceu comigo, e acontece. Pode acontecer. Acontece de ser bom, acontece de ser ruim. As boas conversas são uma das melhores armas que possuímos para lutar contra o preconceito e exigir melhoras não só na esfera do tratamento psiquiátrico e psicológico, mas em todas as áreas da saúde. Eu desejo você converse, tente, telefone para onde for preciso, e encontre ajuda. Desejo que dê tudo certo e você melhore.


dedeblog

Denise Dantas. Trescoroense, estudante de Letras, Aquário e Peixes. Unicórnio das trevas, mãe de cachorro, entusiasta de duendes, sommelier de caipirinha. Extremamente sensível, efusiva, de não tão fácil trato, acredita no amor. Chatinha, pequenininha, sincera e apaixonada, escreve e faz tudo pra acalmar o coração. @unicorniossaurorex fb-art download f88a80d5-d129-47fe-8053-cf057338f7b3.jpg

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2 comentários em “Experiência Pessoal: Tratamento Pelo SUS, CAPS e Avó

  1. Fiquei muito feliz em ler seu relato. Tenho passado pela dificuldade de não ter acompanhamento médico e tentado lidar com crises e as coisas que eu sinto. Meu namorado faz psicologia e insiste que tenho que procurar ajuda e sim, tenho. Mas não tenho como pagar consultas particulares, então ler sobre o CAPS e o SUS me fez sentir um pouco de esperança. Já tinha ouvido falar sobre os dois, mas não fazia ideia se era bom ou não. E como o sistema público tem a fama de ser ruim, fiquei com medo de arriscar. Mas foi ótimo ter um incentivo pra procurar sobre e tentar. Sei que foi sua experiência pessoal e que tudo pode dar errado, hahha, mas mesmo assim foi bom ter um relato positivo sobre. Obrigada!

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    1. Oi, Rebecca ❤ que bom que meu texto foi útil pra você de alguma forma. Trocar informação é muito importante. Quando você tentar o SUS e o CAPS, pode me contar, se quiser, porque também é bom pra mim quando dividem suas histórias. Meu insta é @unicorniossaurorex e você pode mandar inbox lá, que sempre olho, ou, se não tiver, um e-mail pra dedetco@icloud.com s2 beijo e desejo que dê tudo certo e você fique bem

      Curtido por 1 pessoa

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